quinta-feira, 6 de maio de 2010
Uma paixão imaginada
Escrevo neste caderno a minha vontade de te encontrar Penélope. Há muito que sonho contigo, com teu olhar azul penetrante que me esvazia de sentimentos, que me liberta da minha loucura. És tu. Tu és ela. Vejo-te sempre melancólica, como alguém que perdeu algo e que o busca incessante, obsessiva, paranoicamente. Alguém tanto está ali e não está. Alguém que corre e não cansa. Alguém que podia ter chorado mas não chorou. Perdida por amor, fora de si, da carne. A indomável Penélope que vagueia nos meus sonhos. Que vagueia na minha praia deserta – que é só minha e mais ninguém sabe a sua localização a não ser eu – sob um sol que se põe que te estremece a pele e uma brisa que te arrepia os pelos alourados de quem adora a praia. A única coisa que trazes contigo é um lenço de tons arroxeados que fazes rodopiar sobre ti com uma sensualidade só tua. Como quem dança com pessoas imaginadas. A tua silhueta em contra luz move-se arrastada em movimentos de luz celestial. Recolho com os meus olhos cada fotograma do que vejo. Registo cada imagem. Sinto as minhas pernas a tremer, é tão belo Penélope. Sinto-me fraco, o meu coração acelera a cada salto que dás. Quero-te Penélope. Desejo-te. Não sei o que te dizer, estás na minha praia, a invadir o meu espaço. A entrar em algo que é só meu. Nunca ninguém esteve aqui antes Penélope. Calcorreias os caminhos mais secretos do meu Eu. A minha praia. Como podes estar na minha praia se nem te conheço? Se és fruto imaginado da cabeça de outra pessoa? Sento-me perto de ti, não dás pela minha presença. Continuas a dançar enquanto o sol cada vez se baixa mais. Paras. Contemplas o por do sol. Olhas para mim. Por mas estranho que pareça, não me estranhas. Voltas-te para os últimos raios de sol enquanto te sentas a meu lado. Encostas-te a mim e dizes:
- Joaquim, lembraste quando éramos novos? Claro que não te lembras, não existíamos juntos. São as minhas memórias imaginadas. Brincávamos inocentemente de mãos dadas, passeando entre os arvoredos, observando com espanto todas as particularidades da natureza, trocando segredinhos de crianças tolas. Na praia construímos os maiores castelos onde tu e eu éramos rei e rainha. Túneis que davam a volta ao mundo. Depois tomávamos longos banhos no mar e sempre quisemos ser felizes assim. Tudo agora mudou. Crescemos, não há reis nem rainhas, as paixões já não sabem ao mesmo, estamos diferentes. Somos diferentes. Temos medo. Vivemos histórias de amor. Criamos defesas. Somos adultos. Percebes o que isso quer dizer?
Não respondo. Deixo que o silêncio e lusco-fusco tome conta de nós e abraçamo-nos num eterno abraço que não acaba.
212 Electronic
É estranho. Num troca de palavras, apercebi-me que tenho a tendência para escrever quando estou mais negativo. Talvez seja uma tendência natural. Acredito que sim. Mas sinto um ligeira incapacidade para escrever sobre um história feliz. Deve ser por isso que me tenho identificado tanto ultimamente com a escrita do Paul Auster. Histórias de narradores/escritores obsessivos que levam coincidências até as ultimas consequências. Histórias surreais e absurdas. Mas viciantes. Gosto disso e vou continuar a lê-lo.
Um dia vou acabar de escrever a história de Joaquim. E de quando Joaquim conheceu Penélope, a menina dos seus olhos com um corpo abandonado ao mar. Ainda não sei se é uma história de encontro ou desencontro, de paixão fugaz ou amor eterno, feliz ou melancólica... Será, apenas será.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Arte Xávega
Arte Xavega I
Originally uploaded by jmateiro
Foi ao longe que avistei este barco, que reconheci ser pertencente de uma raça em extinção - arte xávega. A arte xávega é um tipo de pesca de arrasto que praticava com muita frequencia na nossa costa mas que agora se encontra em vias de extinção. Já são muito poucas as pessoas que se dedicam a este tipo de pesca. O desejo de ver mais de perto este exemplar levou-me a uma caminhada pelo areal da praia onde encontrei o "Deus te salve" - e que nome magnifico! - e um dos seu marujos que com o seu canivete remendava as redes.
Arte Xavega II
Originally uploaded by jmateiro
A arte xávega, para quem não conhece é tipo de pesca de arrasto muito particular pois o barco sai para mar da própria praia com as redes, deixando uma corda sempre ligada a esta em terra. O barco a remos a afasta-se cerca de 500 metros e larga então as redes. Nesta altura as redes são puxadas para terra - originalmente por juntas de bois, posteriormente auxiliadas por tractores - onde chegava o peixe fresco a praia. Guardo muitos momentos destes na minha memória das várias férias que passei na zona da Torreira. Recordo-me das juntas de bois, das bostas de vaca na praia, do cheiro a peixe quando as redes chegavam. Recordo tudo isso com saudade.
Arte Xavega III
Originally uploaded by jmateiro
Foi com humildade e respeito que abordei este marujo/pescador e lhe pedi para tirar um retrato. Não lhe perguntei o nome. Pensei que seria melhor assim. Tirei o retrato, agradeci e voltei pela praia pensativo. Embora seja ateu, acredito que as palavras que estão inscritas no barco tenho todo o sentido para aquele homem. Por isso é tudo o que lhe desejo: que Deus o salve.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Whisky Bench
Whisky Bench
Originally uploaded by jmateiro
Esta foto foi tirada enquanto aguardava pacientemente o comboio. O dia estava solarengo e achei extremamente peculiar a forma como este homem estava a dormir ao sol com a cabeça enfiada na camisola. Fui comprar um garrafa de água ao café da esquina e quando voltei dois GNRs estavam de volta dele. Enquanto esperava, um reformado de camisa negra aberta e oculos bem graduados abordou-me ao ver-me com uma garrafa de água.
- Se aquele bebesse o que senhor está a beber não teria problemas...
Sorri-lhe amavelmente e perguntei-lhe porquê.
- Pois parece que mal acordou bebeu uma garrafa de whisky e ainda à pouco estava a fumegar. Estiveram ali os guardas a perguntar-lhe se estava a fumar, mas ele parece que não respondeu. Limitou-se a esconder a cabeça dentro da camisola e agora está fumegar lá pra dentro. Os guardas disseram-me para estar atento e se ficar ali muito mais tempo para chamar a ambulância.
Fiquei um pouco mais a conversa mas a hora do meu comboio chegou. Despedi-me.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Não deixei de escrever...
Apenas tenho menos tempo. Mas ainda bloqueio. Ainda tenho paranoias, situações simples em que perco o controle da calma, que me tendem a deixar isolado, que me deprimem, que fazem ser diferente e só. O meu escape tem sido a fotografia. Tenho canalizado toda a minha raiva, falta de auto-estima, ansiedade, irritação, atos destrutrivos na calma e na paz que a fotografia me trás. Sinto-me menos negativo, mas ainda tenho dificuldade em ver as coisas de uma forma positiva. Mas voltemos ao acto da criação.
Estou a tentar materializar em palavras aquilo que tem sido esta minha viagem interna pelo meus fantasmas mais negros que se levantaram e que devem ser ouvidos e não ignorados. Não posso passar a vida a fugir daquilo que na realidade sou e tenho de lidar com isso. Assim, a médio prazo estou a escrever uma pequena história da luta interna dos meus demónios. Tudo parece simples, mas há coisas inexplicáveis que distorcem a realidade de tal forma incapacitante que nos corroem a pouco e pouco.
Tudo a seu tempo. Ah, quase me esquecia. Vou deixar de colocar fotografias aqui, agora uso o flickr. Fica o aqui o Photostream.
Vejam, partilhem, enfim. o que quiserem.
Para banda sonora de leitura escolhi-vos este excelente tema Salvation do album Sunday at Devil Dirt do Mark Lanegan e Isobel Campbell.
Para banda sonora de leitura escolhi-vos este excelente tema Salvation do album Sunday at Devil Dirt do Mark Lanegan e Isobel Campbell.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Manel do Kite
Vim a conhecer o Manel depois de lhe tirar as fotos de um dos muitos paredões ao longo de Espinho. Manel era um PRO no desporto e proporcionou-me alguns momentos fotográficos muito bons.
Quando me retirava, fiz sinal com o polegar levantado como quem diz "Boa!" e ele fez-me sinal para esperar. Veio até terra segurou a asa do kite com mestria de quem já tem anos de prática e disse-me: "Epah, vi que tiraste ai umas fotos podes enviar-mas? Eu dou uns cursos disto se quiseres depois até vens experimentar isto na boa!". Era um individuo extremamente descontraido que se tinha mudado recentemente do porto para Espinho e estava maravilhado com condições para a pratica do desporto por aqui.
Sorri e disse-lhe: "Envio-te claro, por acaso até já estou quase a terminar o curso com Adriano na Nortada na Murtosa. Mas havemos de combinar algo depois." Trocamos contactos, ajudei-o a baixar a asa e segui caminho.
Depois claro, dei aso a uma das minhas muitas histórias de perder coisas, pois tinha colocado os óculos escuros pendurados na camisola para tirar a fotos e no processo de troca de lentes e arranjar o melhor angulo para as fotografias, deixei-os cair algures no paredão. Dei-me conta quando me dirigia para o carro, voltei a trás, mas não os encontrei. Manel, viu que eu tinha perdido algo perguntou-me o que se passava, enquanto arrumava o material.
Expliquei-lhe tudo ele disse-me para procurar no siíios evidentes mala, carro. Procurei e nada. Depois ele disse-me: "Olha eu também sou um bocado para o despistado, fazemos assim, eu arrumo o material e depois vamos os dois ver melhor no paredão." Ajudei-o a levar o material para o seu Mitsubishi Pajero e seguimos o paredão desta vez com mais um par de olhos. E benditos olhos que encontraram os óculos!
Obrigado Manel! Pelo óculos e pelas fotos!
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