sexta-feira, 26 de março de 2010

Loucura

Estou doente demente sem dente tremente delinquente. Abano a cabeça em gestos macios e aleatórios como se não conseguisse segura-la. Choro. As lágrimas escorrem-me pelo rosto mais uma vez. Incontrolável. A dor é atroz. Doí. Doí tanto. Não sei o quê mas doí-me. Sinto-me a ficar louco. Já me perguntaram se saberia distinguir esta dor da dor da perda da minha Mãe por exemplo. A verdade? A verdade é não. Desculpa Mãe. Desculpa Pai. Desculpem-me todos os que me têm ajudado a quem estas palavras magoam mas sinto-me morto por dentro, vazio, sem objectivos, sem planos, sem nada. Sou um zero. Eu e a minha solidão. Eu e o meu vazio. 

No chão a minha colecção de calendários enoja-me, tentei organiza-la, mas nem lhe consigo tocar. Tudo espalhado. Um espelho do que é a minha cabeça. É o caos. O fracasso. Não termina nunca. Nunca termina nunca. Sinto-me um morto vivo e escrevo em desespero. Tenho os neurónios amarfanhados por pensamentos pasmados. Sou neurótico. Não qual é o meu problema mas não consigo fazer nada em condições, sinto-me perdido. Sou um medricas, admito-o. Sinto-me a morrer aos pedaços, isto dilacera-me a alma aos poucos.

Tenho de tentar algo novo, tenho de me reinventar depressa, antes que a morte me reinvente a mim.

terça-feira, 23 de março de 2010

Little Person

Ainda...

Ainda choro, ainda paralizo, ainda fico indeciso, ainda não sei o que fazer com a minha vida, ainda... o melhor é preocupar-me menos e organizar as pequenas coisas por aqui.

domingo, 21 de março de 2010

Oldies

As fotos colocadas são coisas antigas. Pequenas danças mágicas entre mim e o objectos fotografados, onde bailamos entre tentativas falhadas de balanços exactos de luz, cor e sentimento. Podem parecer momentos solitários. Não. Estou eu comigo.

Given to fly

Costa Roca

An Arrabida Morning

I know you are there

Reflections II

sexta-feira, 19 de março de 2010

Coluna na penumbra

Please do not disturb

You can't hide for much longer

Walk of life

Jumping into the wild

Reflections I

Praia


Joaquim veio da praia com um ar sereno. Veio de certa forma transformado. A sua alma vinha em paz. Joaquim sabe bem onde é feliz. É na praia, na areia, nas dunas, nas praias desertas, nos imprevisíveis primeiros banhos primaveris de boxers, nos sítios que poucos conhecem a sua existência. É ai, no ronronar das ondas a enrolar na areia, no cheiro a maresia e no som das gaivotas sobre as traineiras que encontra a serenidade. Os olhos de Joaquim tornam-se brilhantes, reluzentes e é como se Joaquim tivesse encontrado de novo o seu brinquedo de criança.

Eu tive um vislumbre deste Joaquim ontem, mas a verdade é que ele anda à deriva numa jangada feita de paus de melancolia, mastro de tristeza e rodeado um oceano de pesadelos numa noite de tempestade onde chovem lágrimas de dor. 

E hoje ele já mal consegue sorrir…

quinta-feira, 18 de março de 2010

Any given day


Joaquim hoje não teve um dia bom. O Joaquim, como de costume, ouviu o telemóvel (que funciona como despertador) e apeteceu-lhe deixa-lo entrar no snooze e quando ele estivesse ali bem bem descansadinho gritar-lhe ao ouvido: "GOSTAS, GOSTAS, MEU CABRÃO DE MERDA?!?!" Depois pensou melhor e a verdade é que não passa de uma máquina. Foi programada para aquilo não tem culpa de nada. Não tem culpa da falta de vontade de se levantar. Contrariando todas as vontades dos seus músculos, inverteu a lógica do seu cérebro que lhe pedia mais cama e, apesar de não sentir ter grande coisa para fazer vestiu os calções e t-shirt preparando-se para a sua corrida. Por cima umas calças de fato de treino bem quentes e uma camisola de fato de treino com capucho (nos dias frios o vento frio faz doer os ouvidos). Conforme a rotina, tomou o seu pequeno almoço: uma bela torrada barrada em excesso de manteiga.

Joaquim não é uma pessoa feliz. Joaquim é uma pessoa que há muito tempo finge ser feliz. Quando perguntam a Joaquim se gosta do que faz ele diz que sim. Não sabe dar melhor resposta. Quando perguntam se gosta de onde está, ele diz que sim, se diverte, sai e assim. Na verdade sai por que sai. Faz porque faz. Joaquim à muito que não é dono da sua vida. Joaquim faz o que os outros lhe vão dizendo para fazer, vai tomando as opções mais fáceis, vai-se mantendo camuflado. Na verdade Joaquim não existe. Joaquim é uma sombra de pedaços de outros. E assim à mesa Joaquim baixa a cabeça colocando-a sobre os ombros. Ver Joaquim fazer isto foi perturbador para mim. Pensei para os meus botões que não ele não passaria disto, mas foi desconcertante vê-lo levantar a cabeça e verificar que estivera a lacrimejar. Os seus olhos vermelhos não enganam. Tentei falar com ele, mas tudo o que se consegue obter são respostas secas e amargas de quem está longe a pensar sabe-se lá em quê. Joaquim termina a sua refeição e senta-se no sofá com o olhar alheado de tudo. Digo-lhe não te podes isolar desta forma, isso não te vai ajudar, mas o que obtenho é mais uma cabeça baixa e lágrimas sinceras que quem está a sofrer. 

Joaquim ontem foi jantar como pode com amigos e tentou estar lá o mais possível. Eu sei, porque estive lá. Mesmo ontem, nas viagens Joaquim mal conseguiu falar. Quanto mais pensar.

Hoje, depois pedi ao Joaquim para vir correr comigo ao parque para depois seguirmos rumo ao concerto dos Ugly Mountain. Ele vem comigo agora no comboio e parece mais calmo. Mas com ele as aparências iludem sempre…

terça-feira, 16 de março de 2010

Cine


Vejo a pele doce das minhas sobrinhas e verifico que perdi o sorriso dócil da felicidade naive com andar dos anos. Já não sinto o ardor, nem peso que carregava à uns meses a trás mas ainda estou débil, débil demais para me comportar como uma pessoa normal. Vou perder um bom concerto hoje por muito pena minha, mas não vou perder a oportunidade de ir ao cine clube. Tenho dúvidas sobre se o filme será bom ou não, mas porque não arriscar? Boas surpresas podem acontecer e sempre é mais divertido que estar aqui por casa. Sinto que tenho de reagir mas não sinto as minhas reacções naturais.

A ida ao cine clube foi bastante interessante. Tal como esperava, encontrei lá quem estava à espera, a estagiária interessante que conheci no hospital. Na altura trocamos uma  serie de pequenos bilhetes culturais em testamos medimos a nossa aptidão cultural. Bastante compativel ,por sinal. Tinha a visto no início do filme, pareceu-me acompanhada, não sei se namorado ou amigo. Mas já lá vamos. O filme chamava-se "Mar Morto" de um tal de Ramos Pinto. Tal como tinha dito, não estava à espera de nada de especial deste filme e foi mais ou menos isso que obtive. Um filme bem ao estilo europeu, bem cru, que tenta colocar o espectador nas situações desconfortáveis normalmente vividas na solidão de cada um de nós. Um miúdo perturbado, mas se calhar mais normal do que se seria de esperar. Acto solitário da auto satisfação sexual. Perda da virgindade. Luzes. Argh, o filme tem intervalo. Detesto. Olho em volta e confirmo, é mesmo ela. Está diferente, de cabelo solto. Trocamos olhares e aquele cumprimento envergonhado. De resto, reconheço mais duas ou três caras não fosse esta uma cidade relativamente familiar. O filme continua.  Morte das irmãs  populares por abusos de drogas. Filme memoral sombrio. Reedição. Desenlace aceitável. Genérico e as pessoas começam a abandonar a sala. Saio também mas faço um compasso de espera junto dos postais free esperando que ela venha ter comigo. Veio. Falou comigo. Perguntou-me como estava. Disse melhor. Senti-me atrapalhado com situação. Tinha dito ao Sérgio que lhe daria o meu número se ele alguma vez quisesse falar comigo. A verdade é que não tive coragem. Senti-me ansioso. Disse duas ou três coisas sem jeito e despedi-me dela. Nem sequer sei o nome dela. Mais uma vez não senti as minhas reacções como minhas. Senti a atrapalhação do meu Eu. O meu Eu que não desembrulha e fica triste e desamparado. A rodilha em que sinto o meu espírito que não me deixa viver, que não de deixa sentir, que não me deixa soltar. O de menino com olhar cabisbaixo que perdeu o seu carrinho novo de brincar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Eu


Sinto-me preso ao meu passado. Sinto-me um daquelas de Natal esquecidas numa varanda qualquer de um natal longínquo numa casa provavelmente já desabitada. Sinto-me a reviver vezes sem conta as minha recordações, memórias, os meus Eus antigos que já não Eus são, ex Eus e que apenas fazem uma parte do meu actual Eu. O meu Eu. Ouço o crepitar das chamas entre toque leve das teclas do piano e sinto-me estranhamente calmo. Estranhamente em paz. Sinto que tem sido uma viagem, tal como esta. Com paragens. Quem não as tem? Com arranques. Com sonolências. Com violências e sobretudo  com incertezas. Mas uma coisa é certa: tenho de largar o passado, viver o presente para ter um futuro. O meu novo Eu, feito de retalhos do meu velho Eu, com buracos novos para preencher. Reconhecer (e escrever) isto é talvez um passo de gigante. Ainda não é vencer um dos meus grandes demónios, mas é reconhecer que um dos meus grandes demónios é o meu Eu.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Trip to LA

Hoje vou. Simplesmente isso.

terça-feira, 9 de março de 2010

Heart


Acordei. Acordei mais frágil que o costume. Senti as amarras que me prendem a cama e não me deixam fazer nada. Respirei. Vieram-me acordar. Disse o típico "já vou". Não vou nada. Vou ficar aqui. Quieto parado. Sem me conseguir mexer. Apenas a respirar. À espera do fim. A castigar-me de não fazer nada não fazendo nada. O vortex dos fracos. Dos frágeis. O tempo desperdiçado nesta apatia é absurdo, é inegável. Mas é mais forte que eu. Vence-me tantas vezes. Sinto-me o eterno insatisfeito. Penso um pouco na forma carinhosa e quase irónica com quando me dizem que sou "sensível", "muito inteligente", dos que "pensam muito". Depois paro de pensar. Perco a noção do tempo em que fico neste estado impacientemente calmo. Ouço apenas a minha respiração ligeiramente acelerada e ligeiro zumbido do silêncio. Por volta das 11h45m da manhã dou um salto repentino da cama. Olho para a janela vejo tempo cinzento e chamar a chuva. Pressinto-a. Calções. Meias. T-shirt. Fato impermeável de correr. Sapatilhas. Ipod. Phones nos ouvidos. Preciso de algo calmo e relaxante. Já está. Saio pela porta da frente, ponho os pés fora de casa. Sinto ar fresco na cara entre os pelos da minha barba descuidada. Subo calmamente a calçada em direcção ao parque. Cruzo-me com a minha gata cinzenta tigre de olhos azuis que se espreguiça ao passar por mim. Parece feliz. Abro o portão verde. Passo para o outro lado onde vejo tombado o poste eléctricos das últimas tempestades que se tem abatido sobre o país. Penso na ironia da situação relativamente a mim. Esboço um leve sorriso e continuo a subir. Começo a correr mal chego ao topo. Sinto-me bem. Sinto-me leve. A música ajuda. Já à muito que não faço exercício depois de tudo o que se passou pelo que rapidamente me canso. Cerca de 20 minutos a correr em ritmo lento julgar pelo número de músicas que ouvi. Parei ao lado da capela com vista para ao lago. Mas isso nem é importante. O importante é que reparei numa música que já tinha ouvido uma boa dezena de vezes e reparei num pormenor fantástico que naquele momento que se revelou um  de equilíbrio perfeito. O momento guardo-o para mim. Desço calmamente em direcção a casa onde me esperam para almoçar.

Cabras


A tua cabeça é um parque de estacionamento cheio. Nós vamos de carro dentro dela a procura de lugar. Não há. Tudo cheio. Deve ser Domingo. Na tua cabeça é sempre domingo. Domingo de Shopping cheio de famílias felizes que gastam alegremente o seu dinheiro que amealharam no mês anterior ou num crédito qualquer com juros inflacionados. Mas isso não interessa para agora. O que é certo é que não há lugar. Ah, a esperança, luzes de marcha-atrás. Engano, apenas o ajeitar de um carro ao lugar. Que bom para ti – penso eu – tens mais um pensamento no lugar. Continuamos a nossa viagem pelos teus pensamentos. Engraçado, esperava ver carros melhores por aqui. E que desarrumado… K8, P7, tudo cheio, tudo cheio. Seguimos, viramos a direita, chegamos à letra X. Como se marcasse o lugar. Oh, parece-me que esta zona ainda não foi muito explorada. Alguns carros estacionados desordeiramente sem respeito pelas linhas como se aqui não houvesse limites. É aqui que paramos. Entre o X11 e X12.

sábado, 6 de março de 2010

Gotta Problem?

Sei que ninguem quer saber dos meus problemas. Se estou mais em baixo ao mais em cima. Ou se fodia três gajas ontem a noite enquanto fazia um minete a outra que recitava um poema de Al Berto entre gemidos. Pois  bem, eu também quero que tu te fodas.

crosswords

ela: sinómimo de som (dito com algum sotaque nortenho) extremamente repetitivo.
eu: extrema unção.

...

Chamei-lhe asiática quando me disse que tinha ataques constantes de azia.

Come and fly away

A minha cabeça é um contador gigantesco cheio de pequenas gavetas contendo os meus medos, alegrias, bizarrias, moléstias, belezas, ânsias, satisfações, doçuras, amores, rancores, desprezos. Está tudo lá, só não encontro a chave. E cada vez menos tenho a capacidade o arrombar.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Once we found

Oliveiras cinzentas. O crepitar a lenha que arde ferozmente na salamandra que estala com calor. O quase silêncio da televisão que quase se ouve. O barulho de fundo a Amélia na sua azáfama diária. A gata que se embrulha na carpete. 

Olho em frente, respiro fundo. Raspo os pés na cadeira: é um tique nervoso. Lá ao fundo ouço o latir de um cão chateado com passagem das pessoas na rua. Sinto-me numa paz falsa e desassosegada. A gata volta para perto da salamandra e enrosca-se tão perto que parece impossível que se queime. Dói-me pensar. Os emails chovem-me e não me apetece estar relacionado. Vou fazer apenas e só o que tenho a fazer e voltar descansar. Ouço o ruido rotatitivo e repetitivo da máquina de lavar roupa. Faz-me lembrar a minha cabeça. 

quinta-feira, 4 de março de 2010

O dia em o meu mundo parou

A escrita é uma forma de libertação da mente. Quero continuar da forma que comecei, mas sinto-me cingido ao papel e caneta. Sempre disse que detestava a minha letra, razão que nunca me levou a ter uma espécie de diário convencional. Mas isso hoje não é importante. Importante é não me esquecer do que fiz. Importante é que isso fique registado. Não numa mera e vã memória que se apaga e desfalece com a simplicidade de uma morte. Passei três dias fechados. Dizem. Não é que tenha propriamente contado. Quande se passa tanto tempo fechado perde-se a noção do tempo. No primeiro dia senti-me decidido a  a respeitar o combinado, a ser uma pessoa activa, com vontadade de recuperar. O meu unico e simples objectivo era acordar e ir correr. Acordar as 8:30. Deitei-me cedo. É a hora a que normalmente acordo o quão dificil pode ser? 8h30m. Snooze. 8h39m. Snooze. 8h48m. Snooze. 8h57m. Snooze. 9h06m. Snooze. 9h15m.Snooze 9h24m. Snooze. 9h23m. 9h22m. Silêncio. Incapaz de me mexer. Estar só na solidão era o unico consolo. Aninhado. Morrer. Comprar umas sapatilhas era algo demasiado complexo quando comparado com morrer. Não fui. Não me mexi. Até a noite. E foi sempre noite. No dia seguinte, pensei eu. Mas no dia seguinte não foi. Foi igual. Snooze, snooze, snooze até o snooze se cansar de mim. Desliguei os telemoveis, traquei-me no quarto e voltei para a cama. Praticamente não tinha dormido. Sentimentos? Vazio. Não quero saber. Incapacidade. Não consigo. Começava a perder a noção do tempo no quarto escuro. Tenho a sensação que tomo a medicação a cerca de um mês e não sinto os efeitos. Dão conta que tranquei a porta. Estão preocupados. Não quero saber. Estou bem no meu cantinho. Murros. Pontapés. Desistem. Alguém me diz que se eu abrir a porta ninguem entrará no quarto. Dou o meu tempo e acedo. Voltando ao meu problema. Não o sinto resolvido. Sinto cada vez pior. Vejo as pessoas a minha volta cada vez mais preocupadas. As primas. Tentam tiram-me do quarto. Abrem a janela, vejo luz por instantes. Refugio-me debaixo dos lençois. Elas tentam. Mas eu não estou ali. Àgua. Desconforto físico.  Mentalmente morto.  Desistem frustradas. Não pareço ter a capacidade de sentir. Insensivel. Nem me lembrava que a minha tia tinha falecido no dia 31 de Janeiro. A minha cabeça não tem a capacidade de errar nem de voltar a tentar. A minha cabeça entra em ciclos obsessivos. A minha cabeça é doente. Num acto institivo e irracional pego em toda a medicação que tenho a mão e tomo-os. Podia ser que isso me libertasse. Alguem volta mais tarde ao meu quarto e acha estranho a falta de medicamentos. Mantenho-me mudo. Não quero saber. Deixem-me em paz.

(escrito em papel e caneta no hospital após tentativa de suicídio)