quinta-feira, 18 de março de 2010

Any given day


Joaquim hoje não teve um dia bom. O Joaquim, como de costume, ouviu o telemóvel (que funciona como despertador) e apeteceu-lhe deixa-lo entrar no snooze e quando ele estivesse ali bem bem descansadinho gritar-lhe ao ouvido: "GOSTAS, GOSTAS, MEU CABRÃO DE MERDA?!?!" Depois pensou melhor e a verdade é que não passa de uma máquina. Foi programada para aquilo não tem culpa de nada. Não tem culpa da falta de vontade de se levantar. Contrariando todas as vontades dos seus músculos, inverteu a lógica do seu cérebro que lhe pedia mais cama e, apesar de não sentir ter grande coisa para fazer vestiu os calções e t-shirt preparando-se para a sua corrida. Por cima umas calças de fato de treino bem quentes e uma camisola de fato de treino com capucho (nos dias frios o vento frio faz doer os ouvidos). Conforme a rotina, tomou o seu pequeno almoço: uma bela torrada barrada em excesso de manteiga.

Joaquim não é uma pessoa feliz. Joaquim é uma pessoa que há muito tempo finge ser feliz. Quando perguntam a Joaquim se gosta do que faz ele diz que sim. Não sabe dar melhor resposta. Quando perguntam se gosta de onde está, ele diz que sim, se diverte, sai e assim. Na verdade sai por que sai. Faz porque faz. Joaquim à muito que não é dono da sua vida. Joaquim faz o que os outros lhe vão dizendo para fazer, vai tomando as opções mais fáceis, vai-se mantendo camuflado. Na verdade Joaquim não existe. Joaquim é uma sombra de pedaços de outros. E assim à mesa Joaquim baixa a cabeça colocando-a sobre os ombros. Ver Joaquim fazer isto foi perturbador para mim. Pensei para os meus botões que não ele não passaria disto, mas foi desconcertante vê-lo levantar a cabeça e verificar que estivera a lacrimejar. Os seus olhos vermelhos não enganam. Tentei falar com ele, mas tudo o que se consegue obter são respostas secas e amargas de quem está longe a pensar sabe-se lá em quê. Joaquim termina a sua refeição e senta-se no sofá com o olhar alheado de tudo. Digo-lhe não te podes isolar desta forma, isso não te vai ajudar, mas o que obtenho é mais uma cabeça baixa e lágrimas sinceras que quem está a sofrer. 

Joaquim ontem foi jantar como pode com amigos e tentou estar lá o mais possível. Eu sei, porque estive lá. Mesmo ontem, nas viagens Joaquim mal conseguiu falar. Quanto mais pensar.

Hoje, depois pedi ao Joaquim para vir correr comigo ao parque para depois seguirmos rumo ao concerto dos Ugly Mountain. Ele vem comigo agora no comboio e parece mais calmo. Mas com ele as aparências iludem sempre…

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