sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ensemble

Não sei o que fazer. Volto. Não volto. Faço. Não faço. Angustia. E angustia verte-se em lágrimas silenciosas e ofegantes. Caminho. Ah, isso caminho. Para frente, para trás, em círculos. Falo. Não falo. Grito. Sim, sim, isso sim! Grito. Com tudo. Com todos. Não perdoo ninguém. Não têm culpa coitados. Mas eu também não tenho. Abro a porta, vejo o céu cinzento, o vento irónico e as flores murchas caídas no chão. Berro. Não há eco. Só o vento na minha face gélida. Nada. Não sinto nada. Berro novamente mais alto. Nada. Vou a varanda, olho, olho bem lá para baixo. Penso na sensação de liberdade que seria dar um passo em frente. Penso nos segundos que demoraria a desfazer-me no chão. Penso no padrão de sangue que se formaria em torno do meu cadáver deformado. Penso. Penso nisso mas recuo. Dois passos atrás e o janelão impede-me de recuar mais. Paro. Reparo. Reparo que continuo ofegante. Tento acalmar a minha respiração. Não consigo. Dou duas voltas ao jardim e volto para casa onde me espera um almoço feito pela Amélia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Besta


Sou uma besta negra. Arrasto lentamente o meu corpo flácido e mórbido pelo mundo tenebroso, entre silêncios ensurdecedores. Não tenho paixão. Não tenho amor. Desengane-se quem pensa que vai encontrar em mim uma réstia de vida. Não vivo. Sobrevivo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Humor depressivo

Estou tão deprimido que se o Van Gogh me conhecesse me passava a mão pelas costas e dizia "Deixa lá meu pequeno, isso passa!"

Mea Culpa

Detesto ter de viver. Sinto-me desprezivel por já ter desejado ter uma qualquer doença mortal para poder  justificar o quão miserável me sinto.

Higiene


Resolvo finalmente vestir-me. Dirijo-me ao quarto, observo os próximos passos. Ah, as toalhas estão na casa de banho. Fecho a porta. Abro a porta da casa de banho. Olho para o chuveiro. Tiro a roupa, abre lentamente a torneira de água quente. Paro, olho em redor, ouço com atenção as gotículas de água que caem no chão. Reconfortante. Abro a cortina. Entro. Coloco-me debaixo do chuveiro. É bom. Não penso. Existo. Fecho olhos. Tento pensar. "És uma merda". Desisto de pensar. Deixo-me ficar. Fico. Chego os pés para trás e coloco as mãos contra a parede. Baixo a cabeça. Fico. Continuo a ficar. Sabe bem. Tento pensar. "És uma merda". Desisto novamente. Deixo-me cair. Ajoelho-me no chão. Aqui não é tão quente a água. Já não escalda. Recosto-me. Tento pensar. "És uma merda". Desisto de pensar. Deixo-me ficar. Levanto-me, desligo a água e visto-me. São 16h30m.

Blasfémia

São 18h30. Após um telefonema simples a perguntar se quero fazer alguma coisa amanhã, respondo com um ríspido "tanto me faz". Depois de desligar, atiro com desprezo o telemóvel para o lado e desato a chorar silenciosamente. A banda sonora pede o génio de Bill Callahan, sob forma de Smog. Ponho a tocar a Rock Bottom Raiser. As lágrimas secam lentamente deixando sulcos cravados na minha cara não me deixando esquecer a sua existência. Fico mais calmo. Calmo, mas continuo mal. Mal comigo próprio, mal com as pessoas, mal com o mundo… E daqui não consigo sair.

Tarde


São14h30m. Mais uma vez deixei-me dormir. Sinto-me só e nem o raiar de um belo dia de sol me alegra a alma. Levanto-me com esforço. Visto uma qualquer camisola sobre o pijama e arrasto-me até a mesa. Olho para a sopa. Não me apetece. Ponho as mãos entre a cabeça, cabisbaixa. Espero que algo mais interessante surja da cozinha. Na televisão o telejornal fala tragédias, mortes e futebol. O habitual. A Amélia traz um assado com batatas fritas e salada. Melhor. Como. Sem dizer uma palavra. Murmuro "sim" mas maioritariamente "não" a perguntas que me fazem. Às mais complexas respondo "Deixem-me em paz!". Acabo de almoçar. Café. Acaba o telejornal. Bebo o café. Arrasto penosamente a chávena para o lado e deito a minha cabeça sobre a mesa, de braços cruzados. Ouço longe os anúncios da televisão. Passado pouco instantes, começo a reparar na voz estridente da Júlia Pinheiro a relinchar de felicidade. Relembro-me como detesto pessoas felizes. Num gesto pouco coordenado, procuro com a mão direita o comando da televisão para silenciar de vez a besta. Faço-o mas acerto em cheio na caneca de água que começa a verter sobre a mesa. Levanto ligeiramente a cabeça, endireito-a, volto a pousar a cabeça. Não importo. Silêncio. Não sou feliz mas pelo menos estou em paz. Levanto-me. Vou até à janela. Bato com a cabeça no vidro enquanto penso "Sou uma merda". Abro o janelão. Olho em redor, depois fecho os olhos. Ouço carros a passar. Penso nas pessoas dentro desses carros. Certamente felizes. Certamente a pensar na sua azáfama diária, nos seus filhos com joelhos esmurrados, na empregada que arrumou as meias de Verão na gaveta errada, no marido que chega sempre tarde, na mulher que não já há uma semana se recusa a fazer amor. Sento-me no chão. Sinto o sol. Sinto uma ligeira brisa que me abraça dizendo "Cuida de ti meu velho". Vêm-me as lágrimas aos olhos. Contenho-me. Respiro fundo e olho em frente. Vejo a relva verdejante a baloiçar como que quem dança ao som do chilrear do pássaros. Pergunto-me como não se cansam eles de cantar tão belas melodias. Toca o sino da igreja que me relembra "Sou uma merda". Levanto-me.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Detesto

Detesto as pessoas. E detesto mais ainda necessitar de conviver com pessoas.

Manhã


Acordo. São 07h45m. Custa. Detesto a manhã. Irrita-me tudo. Enrolo-me nos lençois e limito-me a respirar. Repito o procedimento durante 10 minutos até ficar a boca seca. Rebolo para o lado contrário. Penso: "Não consigo sair daqui". Respiro. Tento-me levantar mas fico a meio. Volto para trás. "Não consigo, quero cortar os pulsos. Quero morrer." São 08h30m. Dou mais uma volta na cama. Respiro. Boca seca. "Que tipo de faca corta melhor os pulsos?" Grito por dentro: "Sai disto meu estúpido anormal!" Tento-me levantar, desta feita fico sentado na cama. Penso: "Tenho de pensar na roupa, fazer a barba, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, cumprimentar as pessoas que vir pelo caminho com sorriso no lábios de quem está bem... uff... Tanta coisa detestável." Pego na toalha e vou para o banho - espero não encontrar ninguém. Ligo o chuveiro, deixo-o ficar bem quente enquanto me observo ao espelho. Vejo uma silhueta vazia, sem expressão, sem vontade. Ah, sou eu. Encolho os ombros e entro na banheira. A agua bem quente escorre-me pelo corpo nu, vazio, sem expressão e sem vontade. Penso mais uma vez "És uma merda." e deixo-me ficar até sentir a pele enrugar. Perco noção do tempo que passa. Finalmente uso champô. Depois o gel de duche. Depois saio da banheira embrulhado no turco. Passo uma toalha pelo espelho ressoado do vapor do longo banho. Olho para o espelho. Continua lá aquela silhueta vazia, sem expressão. Reparo que tem a barba por fazer. Coloco espuma sobre a cara, espalho-a abundantemente, e preparo-me para fazer a barba. Agua tépida no lavatório. Pego na Gillette. Olho para ela, roço-a pelos meus pulsos e penso "será que consigo cortar os pulsos?" Pressiono um pouco mais sobre eles, mas não me parece eficaz. Desisto. Resolvo focar-me em fazer a barba. Passo a Gillette três vezes pela cara, molho na água no lavatório. Começa a ver-se alguém diferente no espelho. Continuo. Direita, esquerda, queixo. Acabo. Observo. Está alguém diferente no espelho: na mesma sem expressão, na mesma sem vontade mas agora barbeado. Entro no quarto e olho para o relógio. São 9h10m. Outra vez atrasado. Encolho os ombros. Escolho uma roupa que me parece combinar. Calço uns sapatos quaisquer e desço. Passo pelo frigorífico, pego um iogurte de beber. Subo três ou quatro vezes as escadas ou porque me esqueci das chaves, da mochila do portátil, do cachecol ou doutra coisa qualquer. Por vezes encontro alguém a quem fugazmente balbucio "Bom dia, até logo". São 9h30m. Bato a porta enquanto penso "Sou uma merda".