terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tarde


São14h30m. Mais uma vez deixei-me dormir. Sinto-me só e nem o raiar de um belo dia de sol me alegra a alma. Levanto-me com esforço. Visto uma qualquer camisola sobre o pijama e arrasto-me até a mesa. Olho para a sopa. Não me apetece. Ponho as mãos entre a cabeça, cabisbaixa. Espero que algo mais interessante surja da cozinha. Na televisão o telejornal fala tragédias, mortes e futebol. O habitual. A Amélia traz um assado com batatas fritas e salada. Melhor. Como. Sem dizer uma palavra. Murmuro "sim" mas maioritariamente "não" a perguntas que me fazem. Às mais complexas respondo "Deixem-me em paz!". Acabo de almoçar. Café. Acaba o telejornal. Bebo o café. Arrasto penosamente a chávena para o lado e deito a minha cabeça sobre a mesa, de braços cruzados. Ouço longe os anúncios da televisão. Passado pouco instantes, começo a reparar na voz estridente da Júlia Pinheiro a relinchar de felicidade. Relembro-me como detesto pessoas felizes. Num gesto pouco coordenado, procuro com a mão direita o comando da televisão para silenciar de vez a besta. Faço-o mas acerto em cheio na caneca de água que começa a verter sobre a mesa. Levanto ligeiramente a cabeça, endireito-a, volto a pousar a cabeça. Não importo. Silêncio. Não sou feliz mas pelo menos estou em paz. Levanto-me. Vou até à janela. Bato com a cabeça no vidro enquanto penso "Sou uma merda". Abro o janelão. Olho em redor, depois fecho os olhos. Ouço carros a passar. Penso nas pessoas dentro desses carros. Certamente felizes. Certamente a pensar na sua azáfama diária, nos seus filhos com joelhos esmurrados, na empregada que arrumou as meias de Verão na gaveta errada, no marido que chega sempre tarde, na mulher que não já há uma semana se recusa a fazer amor. Sento-me no chão. Sinto o sol. Sinto uma ligeira brisa que me abraça dizendo "Cuida de ti meu velho". Vêm-me as lágrimas aos olhos. Contenho-me. Respiro fundo e olho em frente. Vejo a relva verdejante a baloiçar como que quem dança ao som do chilrear do pássaros. Pergunto-me como não se cansam eles de cantar tão belas melodias. Toca o sino da igreja que me relembra "Sou uma merda". Levanto-me.

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