Acordo. São 07h45m. Custa. Detesto a manhã. Irrita-me tudo. Enrolo-me nos lençois e limito-me a respirar. Repito o procedimento durante 10 minutos até ficar a boca seca. Rebolo para o lado contrário. Penso: "Não consigo sair daqui". Respiro. Tento-me levantar mas fico a meio. Volto para trás. "Não consigo, quero cortar os pulsos. Quero morrer." São 08h30m. Dou mais uma volta na cama. Respiro. Boca seca. "Que tipo de faca corta melhor os pulsos?" Grito por dentro: "Sai disto meu estúpido anormal!" Tento-me levantar, desta feita fico sentado na cama. Penso: "Tenho de pensar na roupa, fazer a barba, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, cumprimentar as pessoas que vir pelo caminho com sorriso no lábios de quem está bem... uff... Tanta coisa detestável." Pego na toalha e vou para o banho - espero não encontrar ninguém. Ligo o chuveiro, deixo-o ficar bem quente enquanto me observo ao espelho. Vejo uma silhueta vazia, sem expressão, sem vontade. Ah, sou eu. Encolho os ombros e entro na banheira. A agua bem quente escorre-me pelo corpo nu, vazio, sem expressão e sem vontade. Penso mais uma vez "És uma merda." e deixo-me ficar até sentir a pele enrugar. Perco noção do tempo que passa. Finalmente uso champô. Depois o gel de duche. Depois saio da banheira embrulhado no turco. Passo uma toalha pelo espelho ressoado do vapor do longo banho. Olho para o espelho. Continua lá aquela silhueta vazia, sem expressão. Reparo que tem a barba por fazer. Coloco espuma sobre a cara, espalho-a abundantemente, e preparo-me para fazer a barba. Agua tépida no lavatório. Pego na Gillette. Olho para ela, roço-a pelos meus pulsos e penso "será que consigo cortar os pulsos?" Pressiono um pouco mais sobre eles, mas não me parece eficaz. Desisto. Resolvo focar-me em fazer a barba. Passo a Gillette três vezes pela cara, molho na água no lavatório. Começa a ver-se alguém diferente no espelho. Continuo. Direita, esquerda, queixo. Acabo. Observo. Está alguém diferente no espelho: na mesma sem expressão, na mesma sem vontade mas agora barbeado. Entro no quarto e olho para o relógio. São 9h10m. Outra vez atrasado. Encolho os ombros. Escolho uma roupa que me parece combinar. Calço uns sapatos quaisquer e desço. Passo pelo frigorífico, pego um iogurte de beber. Subo três ou quatro vezes as escadas ou porque me esqueci das chaves, da mochila do portátil, do cachecol ou doutra coisa qualquer. Por vezes encontro alguém a quem fugazmente balbucio "Bom dia, até logo". São 9h30m. Bato a porta enquanto penso "Sou uma merda".
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Manhã
Acordo. São 07h45m. Custa. Detesto a manhã. Irrita-me tudo. Enrolo-me nos lençois e limito-me a respirar. Repito o procedimento durante 10 minutos até ficar a boca seca. Rebolo para o lado contrário. Penso: "Não consigo sair daqui". Respiro. Tento-me levantar mas fico a meio. Volto para trás. "Não consigo, quero cortar os pulsos. Quero morrer." São 08h30m. Dou mais uma volta na cama. Respiro. Boca seca. "Que tipo de faca corta melhor os pulsos?" Grito por dentro: "Sai disto meu estúpido anormal!" Tento-me levantar, desta feita fico sentado na cama. Penso: "Tenho de pensar na roupa, fazer a barba, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, cumprimentar as pessoas que vir pelo caminho com sorriso no lábios de quem está bem... uff... Tanta coisa detestável." Pego na toalha e vou para o banho - espero não encontrar ninguém. Ligo o chuveiro, deixo-o ficar bem quente enquanto me observo ao espelho. Vejo uma silhueta vazia, sem expressão, sem vontade. Ah, sou eu. Encolho os ombros e entro na banheira. A agua bem quente escorre-me pelo corpo nu, vazio, sem expressão e sem vontade. Penso mais uma vez "És uma merda." e deixo-me ficar até sentir a pele enrugar. Perco noção do tempo que passa. Finalmente uso champô. Depois o gel de duche. Depois saio da banheira embrulhado no turco. Passo uma toalha pelo espelho ressoado do vapor do longo banho. Olho para o espelho. Continua lá aquela silhueta vazia, sem expressão. Reparo que tem a barba por fazer. Coloco espuma sobre a cara, espalho-a abundantemente, e preparo-me para fazer a barba. Agua tépida no lavatório. Pego na Gillette. Olho para ela, roço-a pelos meus pulsos e penso "será que consigo cortar os pulsos?" Pressiono um pouco mais sobre eles, mas não me parece eficaz. Desisto. Resolvo focar-me em fazer a barba. Passo a Gillette três vezes pela cara, molho na água no lavatório. Começa a ver-se alguém diferente no espelho. Continuo. Direita, esquerda, queixo. Acabo. Observo. Está alguém diferente no espelho: na mesma sem expressão, na mesma sem vontade mas agora barbeado. Entro no quarto e olho para o relógio. São 9h10m. Outra vez atrasado. Encolho os ombros. Escolho uma roupa que me parece combinar. Calço uns sapatos quaisquer e desço. Passo pelo frigorífico, pego um iogurte de beber. Subo três ou quatro vezes as escadas ou porque me esqueci das chaves, da mochila do portátil, do cachecol ou doutra coisa qualquer. Por vezes encontro alguém a quem fugazmente balbucio "Bom dia, até logo". São 9h30m. Bato a porta enquanto penso "Sou uma merda".
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