quinta-feira, 6 de maio de 2010

Come and do me again

Uma paixão imaginada


Escrevo neste caderno a minha vontade de te encontrar Penélope. Há muito que sonho contigo, com teu olhar azul penetrante que me esvazia de sentimentos, que me liberta da minha loucura. És tu. Tu és ela. Vejo-te sempre melancólica, como alguém que perdeu algo e que o busca incessante, obsessiva, paranoicamente. Alguém tanto está ali e não está. Alguém que corre e não cansa. Alguém que podia ter chorado mas não chorou. Perdida por amor, fora de si, da carne. A indomável Penélope que vagueia nos meus sonhos. Que vagueia na minha praia deserta – que é só minha e mais ninguém sabe a sua localização a não ser eu – sob um sol que se põe que te estremece a pele e uma brisa que te arrepia os pelos alourados de quem adora a praia. A única coisa que trazes contigo é um lenço de tons arroxeados que fazes rodopiar sobre ti com uma sensualidade só tua. Como quem dança com pessoas imaginadas. A tua silhueta em contra luz move-se arrastada em movimentos de luz celestial. Recolho com os meus olhos cada fotograma do que vejo. Registo cada imagem. Sinto as minhas pernas a tremer, é tão belo Penélope. Sinto-me fraco, o meu coração acelera a cada salto que dás. Quero-te Penélope. Desejo-te. Não sei o que te dizer, estás na minha praia, a invadir o meu espaço. A entrar em algo que é só meu. Nunca ninguém esteve aqui antes Penélope. Calcorreias os caminhos mais secretos do meu Eu. A minha praia. Como podes estar na minha praia se nem te conheço? Se és fruto imaginado da cabeça de outra pessoa? Sento-me perto de ti, não dás pela minha presença. Continuas a dançar enquanto o sol cada vez se baixa mais. Paras. Contemplas o por do sol. Olhas para mim. Por mas estranho que pareça, não me estranhas. Voltas-te para os últimos raios de sol enquanto te sentas a meu lado. Encostas-te a mim e dizes:
- Joaquim, lembraste quando éramos novos? Claro que não te lembras, não existíamos juntos. São as minhas memórias imaginadas. Brincávamos inocentemente de mãos dadas, passeando entre os arvoredos, observando com espanto todas as particularidades da natureza, trocando segredinhos de crianças tolas. Na praia construímos os maiores castelos onde tu e eu éramos rei e rainha. Túneis que davam a volta ao mundo. Depois tomávamos longos banhos no mar e sempre quisemos ser felizes assim. Tudo agora mudou. Crescemos, não há reis nem rainhas, as paixões já não sabem ao mesmo, estamos diferentes. Somos diferentes. Temos medo. Vivemos histórias de amor. Criamos defesas. Somos adultos. Percebes o que isso quer dizer?
Não respondo. Deixo que o silêncio e lusco-fusco tome conta de nós e abraçamo-nos num eterno abraço que não acaba.  

212 Electronic

É estranho. Num troca de palavras, apercebi-me que tenho a tendência para escrever quando estou mais negativo. Talvez seja uma tendência natural. Acredito que sim. Mas sinto um ligeira incapacidade para escrever sobre um história feliz. Deve ser por isso que me tenho identificado tanto ultimamente com a escrita do Paul Auster. Histórias de narradores/escritores obsessivos que levam coincidências até as ultimas consequências. Histórias surreais e absurdas. Mas viciantes. Gosto disso e vou continuar a lê-lo.

Um dia vou acabar de escrever a história de Joaquim. E de quando Joaquim conheceu Penélope, a menina dos seus olhos com um corpo abandonado ao mar. Ainda não sei se é uma história de encontro ou desencontro, de paixão fugaz ou amor eterno, feliz ou melancólica... Será, apenas será.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Arte Xávega


Arte Xavega I
Originally uploaded by jmateiro


Foi ao longe que avistei este barco, que reconheci ser pertencente de uma raça em extinção - arte xávega. A arte xávega é um tipo de pesca de arrasto que praticava com muita frequencia na nossa costa mas que agora se encontra em vias de extinção. Já são muito poucas as pessoas que se dedicam a este tipo de pesca. O desejo de ver mais de perto este exemplar levou-me a uma caminhada pelo areal da praia onde encontrei o "Deus te salve" - e que nome magnifico! - e um dos seu marujos que com o seu canivete remendava as redes.

Arte Xavega II
Arte Xavega II
Originally uploaded by jmateiro


A arte xávega, para quem não conhece é tipo de pesca de arrasto muito particular pois o barco sai para mar da própria praia com as redes, deixando uma corda sempre ligada a esta em terra. O barco a remos a afasta-se cerca de 500 metros e larga então as redes. Nesta altura as redes são puxadas para terra - originalmente por juntas de bois, posteriormente auxiliadas por tractores - onde chegava o peixe fresco a praia. Guardo muitos momentos destes na minha memória das várias férias que passei na zona da Torreira. Recordo-me das juntas de bois, das bostas de vaca na praia, do cheiro a peixe quando as redes chegavam. Recordo tudo isso com saudade.

Arte Xavega III
Arte Xavega III
Originally uploaded by jmateiro


Foi com humildade e respeito que abordei este marujo/pescador e lhe pedi para tirar um retrato. Não lhe perguntei o nome. Pensei que seria melhor assim. Tirei o retrato, agradeci e voltei pela praia pensativo. Embora seja ateu, acredito que as palavras que estão inscritas no barco tenho todo o sentido para aquele homem. Por isso é tudo o que lhe desejo: que Deus o salve.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Whisky Bench


Whisky Bench
Originally uploaded by jmateiro



Esta foto foi tirada enquanto aguardava pacientemente o comboio. O dia estava solarengo e achei extremamente peculiar a forma como este homem estava a dormir ao sol com a cabeça enfiada na camisola. Fui comprar um garrafa de água ao café da esquina e quando voltei dois GNRs estavam de volta dele. Enquanto esperava, um reformado de camisa negra aberta e oculos bem graduados abordou-me ao ver-me com uma garrafa de água. 
- Se aquele bebesse o que senhor está a beber não teria problemas...
Sorri-lhe amavelmente e perguntei-lhe porquê.
- Pois parece que mal acordou bebeu uma garrafa de whisky e ainda à pouco estava a fumegar. Estiveram ali os guardas a perguntar-lhe se estava a fumar, mas ele parece que não respondeu. Limitou-se a esconder a cabeça dentro da camisola e agora está fumegar lá pra dentro. Os guardas disseram-me para estar atento e se ficar ali muito mais tempo para chamar a ambulância. 
Fiquei um pouco mais a conversa mas a hora do meu comboio chegou. Despedi-me.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Não deixei de escrever...

Apenas tenho menos tempo. Mas ainda  bloqueio. Ainda tenho paranoias, situações simples em que perco o controle da calma, que me tendem a deixar isolado, que me deprimem, que fazem ser diferente e só. O meu escape tem sido a fotografia. Tenho canalizado toda a minha raiva, falta de auto-estima, ansiedade, irritação, atos destrutrivos na calma e na paz que a fotografia me trás. Sinto-me menos negativo, mas ainda tenho dificuldade em ver as coisas de uma forma positiva. Mas voltemos ao acto da criação.

Estou a tentar materializar em palavras aquilo que tem sido esta minha viagem interna pelo meus fantasmas mais negros que se levantaram e que devem ser ouvidos e não ignorados. Não posso passar a vida a fugir daquilo que na realidade sou e tenho de lidar com isso. Assim, a médio prazo estou a escrever uma pequena história da luta interna dos meus demónios. Tudo parece simples, mas há coisas inexplicáveis que distorcem a realidade de tal forma incapacitante que nos corroem a pouco e pouco.

Tudo a seu tempo. Ah, quase me esquecia. Vou deixar de colocar fotografias aqui, agora uso o flickr. Fica o aqui o Photostream.

Vejam, partilhem, enfim. o que quiserem.



Para banda sonora de leitura escolhi-vos este excelente tema Salvation do album Sunday at Devil Dirt do Mark Lanegan e Isobel Campbell.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manel do Kite


Vim a conhecer o Manel depois de lhe tirar as fotos de um dos muitos paredões ao longo de Espinho. Manel era um PRO no desporto e proporcionou-me alguns momentos fotográficos muito bons. 


Quando me retirava, fiz sinal com o polegar levantado como quem diz "Boa!" e ele fez-me sinal para esperar. Veio até terra segurou a asa do kite com mestria de quem já tem anos de prática e disse-me: "Epah, vi que tiraste ai umas fotos podes enviar-mas? Eu dou uns cursos disto se quiseres depois até vens experimentar isto na boa!". Era um individuo extremamente descontraido que se tinha mudado recentemente do porto para Espinho e estava maravilhado com condições para a pratica do desporto por aqui.

 


Sorri e disse-lhe: "Envio-te claro, por acaso até já estou quase a terminar o curso com Adriano na Nortada na Murtosa. Mas havemos de combinar algo depois." Trocamos contactos, ajudei-o a baixar a asa e segui caminho.


Depois claro, dei aso a uma das minhas muitas histórias de perder coisas, pois tinha colocado os óculos escuros pendurados na camisola para tirar a fotos e no processo de troca de lentes e arranjar o melhor angulo para as fotografias, deixei-os cair algures no paredão. Dei-me conta quando me dirigia para o carro, voltei a trás, mas não os encontrei. Manel, viu que eu tinha perdido algo perguntou-me o que se passava, enquanto arrumava o material.



Expliquei-lhe tudo ele disse-me para procurar no siíios evidentes mala, carro. Procurei e nada. Depois ele disse-me: "Olha eu também sou um bocado para o despistado, fazemos assim, eu arrumo o material e depois vamos os dois ver melhor no paredão." Ajudei-o a levar o material para o seu Mitsubishi Pajero e seguimos o paredão desta vez com mais um par de olhos. E benditos olhos que encontraram os óculos!


Obrigado Manel! Pelo óculos e pelas fotos!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Loucura

Estou doente demente sem dente tremente delinquente. Abano a cabeça em gestos macios e aleatórios como se não conseguisse segura-la. Choro. As lágrimas escorrem-me pelo rosto mais uma vez. Incontrolável. A dor é atroz. Doí. Doí tanto. Não sei o quê mas doí-me. Sinto-me a ficar louco. Já me perguntaram se saberia distinguir esta dor da dor da perda da minha Mãe por exemplo. A verdade? A verdade é não. Desculpa Mãe. Desculpa Pai. Desculpem-me todos os que me têm ajudado a quem estas palavras magoam mas sinto-me morto por dentro, vazio, sem objectivos, sem planos, sem nada. Sou um zero. Eu e a minha solidão. Eu e o meu vazio. 

No chão a minha colecção de calendários enoja-me, tentei organiza-la, mas nem lhe consigo tocar. Tudo espalhado. Um espelho do que é a minha cabeça. É o caos. O fracasso. Não termina nunca. Nunca termina nunca. Sinto-me um morto vivo e escrevo em desespero. Tenho os neurónios amarfanhados por pensamentos pasmados. Sou neurótico. Não qual é o meu problema mas não consigo fazer nada em condições, sinto-me perdido. Sou um medricas, admito-o. Sinto-me a morrer aos pedaços, isto dilacera-me a alma aos poucos.

Tenho de tentar algo novo, tenho de me reinventar depressa, antes que a morte me reinvente a mim.

terça-feira, 23 de março de 2010

Little Person

Ainda...

Ainda choro, ainda paralizo, ainda fico indeciso, ainda não sei o que fazer com a minha vida, ainda... o melhor é preocupar-me menos e organizar as pequenas coisas por aqui.

domingo, 21 de março de 2010

Oldies

As fotos colocadas são coisas antigas. Pequenas danças mágicas entre mim e o objectos fotografados, onde bailamos entre tentativas falhadas de balanços exactos de luz, cor e sentimento. Podem parecer momentos solitários. Não. Estou eu comigo.

Given to fly

Costa Roca

An Arrabida Morning

I know you are there

Reflections II

sexta-feira, 19 de março de 2010

Coluna na penumbra

Please do not disturb

You can't hide for much longer

Walk of life

Jumping into the wild

Reflections I

Praia


Joaquim veio da praia com um ar sereno. Veio de certa forma transformado. A sua alma vinha em paz. Joaquim sabe bem onde é feliz. É na praia, na areia, nas dunas, nas praias desertas, nos imprevisíveis primeiros banhos primaveris de boxers, nos sítios que poucos conhecem a sua existência. É ai, no ronronar das ondas a enrolar na areia, no cheiro a maresia e no som das gaivotas sobre as traineiras que encontra a serenidade. Os olhos de Joaquim tornam-se brilhantes, reluzentes e é como se Joaquim tivesse encontrado de novo o seu brinquedo de criança.

Eu tive um vislumbre deste Joaquim ontem, mas a verdade é que ele anda à deriva numa jangada feita de paus de melancolia, mastro de tristeza e rodeado um oceano de pesadelos numa noite de tempestade onde chovem lágrimas de dor. 

E hoje ele já mal consegue sorrir…

quinta-feira, 18 de março de 2010

Any given day


Joaquim hoje não teve um dia bom. O Joaquim, como de costume, ouviu o telemóvel (que funciona como despertador) e apeteceu-lhe deixa-lo entrar no snooze e quando ele estivesse ali bem bem descansadinho gritar-lhe ao ouvido: "GOSTAS, GOSTAS, MEU CABRÃO DE MERDA?!?!" Depois pensou melhor e a verdade é que não passa de uma máquina. Foi programada para aquilo não tem culpa de nada. Não tem culpa da falta de vontade de se levantar. Contrariando todas as vontades dos seus músculos, inverteu a lógica do seu cérebro que lhe pedia mais cama e, apesar de não sentir ter grande coisa para fazer vestiu os calções e t-shirt preparando-se para a sua corrida. Por cima umas calças de fato de treino bem quentes e uma camisola de fato de treino com capucho (nos dias frios o vento frio faz doer os ouvidos). Conforme a rotina, tomou o seu pequeno almoço: uma bela torrada barrada em excesso de manteiga.

Joaquim não é uma pessoa feliz. Joaquim é uma pessoa que há muito tempo finge ser feliz. Quando perguntam a Joaquim se gosta do que faz ele diz que sim. Não sabe dar melhor resposta. Quando perguntam se gosta de onde está, ele diz que sim, se diverte, sai e assim. Na verdade sai por que sai. Faz porque faz. Joaquim à muito que não é dono da sua vida. Joaquim faz o que os outros lhe vão dizendo para fazer, vai tomando as opções mais fáceis, vai-se mantendo camuflado. Na verdade Joaquim não existe. Joaquim é uma sombra de pedaços de outros. E assim à mesa Joaquim baixa a cabeça colocando-a sobre os ombros. Ver Joaquim fazer isto foi perturbador para mim. Pensei para os meus botões que não ele não passaria disto, mas foi desconcertante vê-lo levantar a cabeça e verificar que estivera a lacrimejar. Os seus olhos vermelhos não enganam. Tentei falar com ele, mas tudo o que se consegue obter são respostas secas e amargas de quem está longe a pensar sabe-se lá em quê. Joaquim termina a sua refeição e senta-se no sofá com o olhar alheado de tudo. Digo-lhe não te podes isolar desta forma, isso não te vai ajudar, mas o que obtenho é mais uma cabeça baixa e lágrimas sinceras que quem está a sofrer. 

Joaquim ontem foi jantar como pode com amigos e tentou estar lá o mais possível. Eu sei, porque estive lá. Mesmo ontem, nas viagens Joaquim mal conseguiu falar. Quanto mais pensar.

Hoje, depois pedi ao Joaquim para vir correr comigo ao parque para depois seguirmos rumo ao concerto dos Ugly Mountain. Ele vem comigo agora no comboio e parece mais calmo. Mas com ele as aparências iludem sempre…

terça-feira, 16 de março de 2010

Cine


Vejo a pele doce das minhas sobrinhas e verifico que perdi o sorriso dócil da felicidade naive com andar dos anos. Já não sinto o ardor, nem peso que carregava à uns meses a trás mas ainda estou débil, débil demais para me comportar como uma pessoa normal. Vou perder um bom concerto hoje por muito pena minha, mas não vou perder a oportunidade de ir ao cine clube. Tenho dúvidas sobre se o filme será bom ou não, mas porque não arriscar? Boas surpresas podem acontecer e sempre é mais divertido que estar aqui por casa. Sinto que tenho de reagir mas não sinto as minhas reacções naturais.

A ida ao cine clube foi bastante interessante. Tal como esperava, encontrei lá quem estava à espera, a estagiária interessante que conheci no hospital. Na altura trocamos uma  serie de pequenos bilhetes culturais em testamos medimos a nossa aptidão cultural. Bastante compativel ,por sinal. Tinha a visto no início do filme, pareceu-me acompanhada, não sei se namorado ou amigo. Mas já lá vamos. O filme chamava-se "Mar Morto" de um tal de Ramos Pinto. Tal como tinha dito, não estava à espera de nada de especial deste filme e foi mais ou menos isso que obtive. Um filme bem ao estilo europeu, bem cru, que tenta colocar o espectador nas situações desconfortáveis normalmente vividas na solidão de cada um de nós. Um miúdo perturbado, mas se calhar mais normal do que se seria de esperar. Acto solitário da auto satisfação sexual. Perda da virgindade. Luzes. Argh, o filme tem intervalo. Detesto. Olho em volta e confirmo, é mesmo ela. Está diferente, de cabelo solto. Trocamos olhares e aquele cumprimento envergonhado. De resto, reconheço mais duas ou três caras não fosse esta uma cidade relativamente familiar. O filme continua.  Morte das irmãs  populares por abusos de drogas. Filme memoral sombrio. Reedição. Desenlace aceitável. Genérico e as pessoas começam a abandonar a sala. Saio também mas faço um compasso de espera junto dos postais free esperando que ela venha ter comigo. Veio. Falou comigo. Perguntou-me como estava. Disse melhor. Senti-me atrapalhado com situação. Tinha dito ao Sérgio que lhe daria o meu número se ele alguma vez quisesse falar comigo. A verdade é que não tive coragem. Senti-me ansioso. Disse duas ou três coisas sem jeito e despedi-me dela. Nem sequer sei o nome dela. Mais uma vez não senti as minhas reacções como minhas. Senti a atrapalhação do meu Eu. O meu Eu que não desembrulha e fica triste e desamparado. A rodilha em que sinto o meu espírito que não me deixa viver, que não de deixa sentir, que não me deixa soltar. O de menino com olhar cabisbaixo que perdeu o seu carrinho novo de brincar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Eu


Sinto-me preso ao meu passado. Sinto-me um daquelas de Natal esquecidas numa varanda qualquer de um natal longínquo numa casa provavelmente já desabitada. Sinto-me a reviver vezes sem conta as minha recordações, memórias, os meus Eus antigos que já não Eus são, ex Eus e que apenas fazem uma parte do meu actual Eu. O meu Eu. Ouço o crepitar das chamas entre toque leve das teclas do piano e sinto-me estranhamente calmo. Estranhamente em paz. Sinto que tem sido uma viagem, tal como esta. Com paragens. Quem não as tem? Com arranques. Com sonolências. Com violências e sobretudo  com incertezas. Mas uma coisa é certa: tenho de largar o passado, viver o presente para ter um futuro. O meu novo Eu, feito de retalhos do meu velho Eu, com buracos novos para preencher. Reconhecer (e escrever) isto é talvez um passo de gigante. Ainda não é vencer um dos meus grandes demónios, mas é reconhecer que um dos meus grandes demónios é o meu Eu.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Trip to LA

Hoje vou. Simplesmente isso.

terça-feira, 9 de março de 2010

Heart


Acordei. Acordei mais frágil que o costume. Senti as amarras que me prendem a cama e não me deixam fazer nada. Respirei. Vieram-me acordar. Disse o típico "já vou". Não vou nada. Vou ficar aqui. Quieto parado. Sem me conseguir mexer. Apenas a respirar. À espera do fim. A castigar-me de não fazer nada não fazendo nada. O vortex dos fracos. Dos frágeis. O tempo desperdiçado nesta apatia é absurdo, é inegável. Mas é mais forte que eu. Vence-me tantas vezes. Sinto-me o eterno insatisfeito. Penso um pouco na forma carinhosa e quase irónica com quando me dizem que sou "sensível", "muito inteligente", dos que "pensam muito". Depois paro de pensar. Perco a noção do tempo em que fico neste estado impacientemente calmo. Ouço apenas a minha respiração ligeiramente acelerada e ligeiro zumbido do silêncio. Por volta das 11h45m da manhã dou um salto repentino da cama. Olho para a janela vejo tempo cinzento e chamar a chuva. Pressinto-a. Calções. Meias. T-shirt. Fato impermeável de correr. Sapatilhas. Ipod. Phones nos ouvidos. Preciso de algo calmo e relaxante. Já está. Saio pela porta da frente, ponho os pés fora de casa. Sinto ar fresco na cara entre os pelos da minha barba descuidada. Subo calmamente a calçada em direcção ao parque. Cruzo-me com a minha gata cinzenta tigre de olhos azuis que se espreguiça ao passar por mim. Parece feliz. Abro o portão verde. Passo para o outro lado onde vejo tombado o poste eléctricos das últimas tempestades que se tem abatido sobre o país. Penso na ironia da situação relativamente a mim. Esboço um leve sorriso e continuo a subir. Começo a correr mal chego ao topo. Sinto-me bem. Sinto-me leve. A música ajuda. Já à muito que não faço exercício depois de tudo o que se passou pelo que rapidamente me canso. Cerca de 20 minutos a correr em ritmo lento julgar pelo número de músicas que ouvi. Parei ao lado da capela com vista para ao lago. Mas isso nem é importante. O importante é que reparei numa música que já tinha ouvido uma boa dezena de vezes e reparei num pormenor fantástico que naquele momento que se revelou um  de equilíbrio perfeito. O momento guardo-o para mim. Desço calmamente em direcção a casa onde me esperam para almoçar.

Cabras


A tua cabeça é um parque de estacionamento cheio. Nós vamos de carro dentro dela a procura de lugar. Não há. Tudo cheio. Deve ser Domingo. Na tua cabeça é sempre domingo. Domingo de Shopping cheio de famílias felizes que gastam alegremente o seu dinheiro que amealharam no mês anterior ou num crédito qualquer com juros inflacionados. Mas isso não interessa para agora. O que é certo é que não há lugar. Ah, a esperança, luzes de marcha-atrás. Engano, apenas o ajeitar de um carro ao lugar. Que bom para ti – penso eu – tens mais um pensamento no lugar. Continuamos a nossa viagem pelos teus pensamentos. Engraçado, esperava ver carros melhores por aqui. E que desarrumado… K8, P7, tudo cheio, tudo cheio. Seguimos, viramos a direita, chegamos à letra X. Como se marcasse o lugar. Oh, parece-me que esta zona ainda não foi muito explorada. Alguns carros estacionados desordeiramente sem respeito pelas linhas como se aqui não houvesse limites. É aqui que paramos. Entre o X11 e X12.

sábado, 6 de março de 2010

Gotta Problem?

Sei que ninguem quer saber dos meus problemas. Se estou mais em baixo ao mais em cima. Ou se fodia três gajas ontem a noite enquanto fazia um minete a outra que recitava um poema de Al Berto entre gemidos. Pois  bem, eu também quero que tu te fodas.

crosswords

ela: sinómimo de som (dito com algum sotaque nortenho) extremamente repetitivo.
eu: extrema unção.

...

Chamei-lhe asiática quando me disse que tinha ataques constantes de azia.

Come and fly away

A minha cabeça é um contador gigantesco cheio de pequenas gavetas contendo os meus medos, alegrias, bizarrias, moléstias, belezas, ânsias, satisfações, doçuras, amores, rancores, desprezos. Está tudo lá, só não encontro a chave. E cada vez menos tenho a capacidade o arrombar.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Once we found

Oliveiras cinzentas. O crepitar a lenha que arde ferozmente na salamandra que estala com calor. O quase silêncio da televisão que quase se ouve. O barulho de fundo a Amélia na sua azáfama diária. A gata que se embrulha na carpete. 

Olho em frente, respiro fundo. Raspo os pés na cadeira: é um tique nervoso. Lá ao fundo ouço o latir de um cão chateado com passagem das pessoas na rua. Sinto-me numa paz falsa e desassosegada. A gata volta para perto da salamandra e enrosca-se tão perto que parece impossível que se queime. Dói-me pensar. Os emails chovem-me e não me apetece estar relacionado. Vou fazer apenas e só o que tenho a fazer e voltar descansar. Ouço o ruido rotatitivo e repetitivo da máquina de lavar roupa. Faz-me lembrar a minha cabeça. 

quinta-feira, 4 de março de 2010

O dia em o meu mundo parou

A escrita é uma forma de libertação da mente. Quero continuar da forma que comecei, mas sinto-me cingido ao papel e caneta. Sempre disse que detestava a minha letra, razão que nunca me levou a ter uma espécie de diário convencional. Mas isso hoje não é importante. Importante é não me esquecer do que fiz. Importante é que isso fique registado. Não numa mera e vã memória que se apaga e desfalece com a simplicidade de uma morte. Passei três dias fechados. Dizem. Não é que tenha propriamente contado. Quande se passa tanto tempo fechado perde-se a noção do tempo. No primeiro dia senti-me decidido a  a respeitar o combinado, a ser uma pessoa activa, com vontadade de recuperar. O meu unico e simples objectivo era acordar e ir correr. Acordar as 8:30. Deitei-me cedo. É a hora a que normalmente acordo o quão dificil pode ser? 8h30m. Snooze. 8h39m. Snooze. 8h48m. Snooze. 8h57m. Snooze. 9h06m. Snooze. 9h15m.Snooze 9h24m. Snooze. 9h23m. 9h22m. Silêncio. Incapaz de me mexer. Estar só na solidão era o unico consolo. Aninhado. Morrer. Comprar umas sapatilhas era algo demasiado complexo quando comparado com morrer. Não fui. Não me mexi. Até a noite. E foi sempre noite. No dia seguinte, pensei eu. Mas no dia seguinte não foi. Foi igual. Snooze, snooze, snooze até o snooze se cansar de mim. Desliguei os telemoveis, traquei-me no quarto e voltei para a cama. Praticamente não tinha dormido. Sentimentos? Vazio. Não quero saber. Incapacidade. Não consigo. Começava a perder a noção do tempo no quarto escuro. Tenho a sensação que tomo a medicação a cerca de um mês e não sinto os efeitos. Dão conta que tranquei a porta. Estão preocupados. Não quero saber. Estou bem no meu cantinho. Murros. Pontapés. Desistem. Alguém me diz que se eu abrir a porta ninguem entrará no quarto. Dou o meu tempo e acedo. Voltando ao meu problema. Não o sinto resolvido. Sinto cada vez pior. Vejo as pessoas a minha volta cada vez mais preocupadas. As primas. Tentam tiram-me do quarto. Abrem a janela, vejo luz por instantes. Refugio-me debaixo dos lençois. Elas tentam. Mas eu não estou ali. Àgua. Desconforto físico.  Mentalmente morto.  Desistem frustradas. Não pareço ter a capacidade de sentir. Insensivel. Nem me lembrava que a minha tia tinha falecido no dia 31 de Janeiro. A minha cabeça não tem a capacidade de errar nem de voltar a tentar. A minha cabeça entra em ciclos obsessivos. A minha cabeça é doente. Num acto institivo e irracional pego em toda a medicação que tenho a mão e tomo-os. Podia ser que isso me libertasse. Alguem volta mais tarde ao meu quarto e acha estranho a falta de medicamentos. Mantenho-me mudo. Não quero saber. Deixem-me em paz.

(escrito em papel e caneta no hospital após tentativa de suicídio)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ensemble

Não sei o que fazer. Volto. Não volto. Faço. Não faço. Angustia. E angustia verte-se em lágrimas silenciosas e ofegantes. Caminho. Ah, isso caminho. Para frente, para trás, em círculos. Falo. Não falo. Grito. Sim, sim, isso sim! Grito. Com tudo. Com todos. Não perdoo ninguém. Não têm culpa coitados. Mas eu também não tenho. Abro a porta, vejo o céu cinzento, o vento irónico e as flores murchas caídas no chão. Berro. Não há eco. Só o vento na minha face gélida. Nada. Não sinto nada. Berro novamente mais alto. Nada. Vou a varanda, olho, olho bem lá para baixo. Penso na sensação de liberdade que seria dar um passo em frente. Penso nos segundos que demoraria a desfazer-me no chão. Penso no padrão de sangue que se formaria em torno do meu cadáver deformado. Penso. Penso nisso mas recuo. Dois passos atrás e o janelão impede-me de recuar mais. Paro. Reparo. Reparo que continuo ofegante. Tento acalmar a minha respiração. Não consigo. Dou duas voltas ao jardim e volto para casa onde me espera um almoço feito pela Amélia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Besta


Sou uma besta negra. Arrasto lentamente o meu corpo flácido e mórbido pelo mundo tenebroso, entre silêncios ensurdecedores. Não tenho paixão. Não tenho amor. Desengane-se quem pensa que vai encontrar em mim uma réstia de vida. Não vivo. Sobrevivo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Humor depressivo

Estou tão deprimido que se o Van Gogh me conhecesse me passava a mão pelas costas e dizia "Deixa lá meu pequeno, isso passa!"

Mea Culpa

Detesto ter de viver. Sinto-me desprezivel por já ter desejado ter uma qualquer doença mortal para poder  justificar o quão miserável me sinto.

Higiene


Resolvo finalmente vestir-me. Dirijo-me ao quarto, observo os próximos passos. Ah, as toalhas estão na casa de banho. Fecho a porta. Abro a porta da casa de banho. Olho para o chuveiro. Tiro a roupa, abre lentamente a torneira de água quente. Paro, olho em redor, ouço com atenção as gotículas de água que caem no chão. Reconfortante. Abro a cortina. Entro. Coloco-me debaixo do chuveiro. É bom. Não penso. Existo. Fecho olhos. Tento pensar. "És uma merda". Desisto de pensar. Deixo-me ficar. Fico. Chego os pés para trás e coloco as mãos contra a parede. Baixo a cabeça. Fico. Continuo a ficar. Sabe bem. Tento pensar. "És uma merda". Desisto novamente. Deixo-me cair. Ajoelho-me no chão. Aqui não é tão quente a água. Já não escalda. Recosto-me. Tento pensar. "És uma merda". Desisto de pensar. Deixo-me ficar. Levanto-me, desligo a água e visto-me. São 16h30m.

Blasfémia

São 18h30. Após um telefonema simples a perguntar se quero fazer alguma coisa amanhã, respondo com um ríspido "tanto me faz". Depois de desligar, atiro com desprezo o telemóvel para o lado e desato a chorar silenciosamente. A banda sonora pede o génio de Bill Callahan, sob forma de Smog. Ponho a tocar a Rock Bottom Raiser. As lágrimas secam lentamente deixando sulcos cravados na minha cara não me deixando esquecer a sua existência. Fico mais calmo. Calmo, mas continuo mal. Mal comigo próprio, mal com as pessoas, mal com o mundo… E daqui não consigo sair.

Tarde


São14h30m. Mais uma vez deixei-me dormir. Sinto-me só e nem o raiar de um belo dia de sol me alegra a alma. Levanto-me com esforço. Visto uma qualquer camisola sobre o pijama e arrasto-me até a mesa. Olho para a sopa. Não me apetece. Ponho as mãos entre a cabeça, cabisbaixa. Espero que algo mais interessante surja da cozinha. Na televisão o telejornal fala tragédias, mortes e futebol. O habitual. A Amélia traz um assado com batatas fritas e salada. Melhor. Como. Sem dizer uma palavra. Murmuro "sim" mas maioritariamente "não" a perguntas que me fazem. Às mais complexas respondo "Deixem-me em paz!". Acabo de almoçar. Café. Acaba o telejornal. Bebo o café. Arrasto penosamente a chávena para o lado e deito a minha cabeça sobre a mesa, de braços cruzados. Ouço longe os anúncios da televisão. Passado pouco instantes, começo a reparar na voz estridente da Júlia Pinheiro a relinchar de felicidade. Relembro-me como detesto pessoas felizes. Num gesto pouco coordenado, procuro com a mão direita o comando da televisão para silenciar de vez a besta. Faço-o mas acerto em cheio na caneca de água que começa a verter sobre a mesa. Levanto ligeiramente a cabeça, endireito-a, volto a pousar a cabeça. Não importo. Silêncio. Não sou feliz mas pelo menos estou em paz. Levanto-me. Vou até à janela. Bato com a cabeça no vidro enquanto penso "Sou uma merda". Abro o janelão. Olho em redor, depois fecho os olhos. Ouço carros a passar. Penso nas pessoas dentro desses carros. Certamente felizes. Certamente a pensar na sua azáfama diária, nos seus filhos com joelhos esmurrados, na empregada que arrumou as meias de Verão na gaveta errada, no marido que chega sempre tarde, na mulher que não já há uma semana se recusa a fazer amor. Sento-me no chão. Sinto o sol. Sinto uma ligeira brisa que me abraça dizendo "Cuida de ti meu velho". Vêm-me as lágrimas aos olhos. Contenho-me. Respiro fundo e olho em frente. Vejo a relva verdejante a baloiçar como que quem dança ao som do chilrear do pássaros. Pergunto-me como não se cansam eles de cantar tão belas melodias. Toca o sino da igreja que me relembra "Sou uma merda". Levanto-me.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Detesto

Detesto as pessoas. E detesto mais ainda necessitar de conviver com pessoas.

Manhã


Acordo. São 07h45m. Custa. Detesto a manhã. Irrita-me tudo. Enrolo-me nos lençois e limito-me a respirar. Repito o procedimento durante 10 minutos até ficar a boca seca. Rebolo para o lado contrário. Penso: "Não consigo sair daqui". Respiro. Tento-me levantar mas fico a meio. Volto para trás. "Não consigo, quero cortar os pulsos. Quero morrer." São 08h30m. Dou mais uma volta na cama. Respiro. Boca seca. "Que tipo de faca corta melhor os pulsos?" Grito por dentro: "Sai disto meu estúpido anormal!" Tento-me levantar, desta feita fico sentado na cama. Penso: "Tenho de pensar na roupa, fazer a barba, tomar banho, tomar o pequeno-almoço, cumprimentar as pessoas que vir pelo caminho com sorriso no lábios de quem está bem... uff... Tanta coisa detestável." Pego na toalha e vou para o banho - espero não encontrar ninguém. Ligo o chuveiro, deixo-o ficar bem quente enquanto me observo ao espelho. Vejo uma silhueta vazia, sem expressão, sem vontade. Ah, sou eu. Encolho os ombros e entro na banheira. A agua bem quente escorre-me pelo corpo nu, vazio, sem expressão e sem vontade. Penso mais uma vez "És uma merda." e deixo-me ficar até sentir a pele enrugar. Perco noção do tempo que passa. Finalmente uso champô. Depois o gel de duche. Depois saio da banheira embrulhado no turco. Passo uma toalha pelo espelho ressoado do vapor do longo banho. Olho para o espelho. Continua lá aquela silhueta vazia, sem expressão. Reparo que tem a barba por fazer. Coloco espuma sobre a cara, espalho-a abundantemente, e preparo-me para fazer a barba. Agua tépida no lavatório. Pego na Gillette. Olho para ela, roço-a pelos meus pulsos e penso "será que consigo cortar os pulsos?" Pressiono um pouco mais sobre eles, mas não me parece eficaz. Desisto. Resolvo focar-me em fazer a barba. Passo a Gillette três vezes pela cara, molho na água no lavatório. Começa a ver-se alguém diferente no espelho. Continuo. Direita, esquerda, queixo. Acabo. Observo. Está alguém diferente no espelho: na mesma sem expressão, na mesma sem vontade mas agora barbeado. Entro no quarto e olho para o relógio. São 9h10m. Outra vez atrasado. Encolho os ombros. Escolho uma roupa que me parece combinar. Calço uns sapatos quaisquer e desço. Passo pelo frigorífico, pego um iogurte de beber. Subo três ou quatro vezes as escadas ou porque me esqueci das chaves, da mochila do portátil, do cachecol ou doutra coisa qualquer. Por vezes encontro alguém a quem fugazmente balbucio "Bom dia, até logo". São 9h30m. Bato a porta enquanto penso "Sou uma merda".