quinta-feira, 4 de março de 2010

O dia em o meu mundo parou

A escrita é uma forma de libertação da mente. Quero continuar da forma que comecei, mas sinto-me cingido ao papel e caneta. Sempre disse que detestava a minha letra, razão que nunca me levou a ter uma espécie de diário convencional. Mas isso hoje não é importante. Importante é não me esquecer do que fiz. Importante é que isso fique registado. Não numa mera e vã memória que se apaga e desfalece com a simplicidade de uma morte. Passei três dias fechados. Dizem. Não é que tenha propriamente contado. Quande se passa tanto tempo fechado perde-se a noção do tempo. No primeiro dia senti-me decidido a  a respeitar o combinado, a ser uma pessoa activa, com vontadade de recuperar. O meu unico e simples objectivo era acordar e ir correr. Acordar as 8:30. Deitei-me cedo. É a hora a que normalmente acordo o quão dificil pode ser? 8h30m. Snooze. 8h39m. Snooze. 8h48m. Snooze. 8h57m. Snooze. 9h06m. Snooze. 9h15m.Snooze 9h24m. Snooze. 9h23m. 9h22m. Silêncio. Incapaz de me mexer. Estar só na solidão era o unico consolo. Aninhado. Morrer. Comprar umas sapatilhas era algo demasiado complexo quando comparado com morrer. Não fui. Não me mexi. Até a noite. E foi sempre noite. No dia seguinte, pensei eu. Mas no dia seguinte não foi. Foi igual. Snooze, snooze, snooze até o snooze se cansar de mim. Desliguei os telemoveis, traquei-me no quarto e voltei para a cama. Praticamente não tinha dormido. Sentimentos? Vazio. Não quero saber. Incapacidade. Não consigo. Começava a perder a noção do tempo no quarto escuro. Tenho a sensação que tomo a medicação a cerca de um mês e não sinto os efeitos. Dão conta que tranquei a porta. Estão preocupados. Não quero saber. Estou bem no meu cantinho. Murros. Pontapés. Desistem. Alguém me diz que se eu abrir a porta ninguem entrará no quarto. Dou o meu tempo e acedo. Voltando ao meu problema. Não o sinto resolvido. Sinto cada vez pior. Vejo as pessoas a minha volta cada vez mais preocupadas. As primas. Tentam tiram-me do quarto. Abrem a janela, vejo luz por instantes. Refugio-me debaixo dos lençois. Elas tentam. Mas eu não estou ali. Àgua. Desconforto físico.  Mentalmente morto.  Desistem frustradas. Não pareço ter a capacidade de sentir. Insensivel. Nem me lembrava que a minha tia tinha falecido no dia 31 de Janeiro. A minha cabeça não tem a capacidade de errar nem de voltar a tentar. A minha cabeça entra em ciclos obsessivos. A minha cabeça é doente. Num acto institivo e irracional pego em toda a medicação que tenho a mão e tomo-os. Podia ser que isso me libertasse. Alguem volta mais tarde ao meu quarto e acha estranho a falta de medicamentos. Mantenho-me mudo. Não quero saber. Deixem-me em paz.

(escrito em papel e caneta no hospital após tentativa de suicídio)

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