Vejo a pele doce das minhas sobrinhas e verifico que perdi o sorriso dócil da felicidade naive com andar dos anos. Já não sinto o ardor, nem peso que carregava à uns meses a trás mas ainda estou débil, débil demais para me comportar como uma pessoa normal. Vou perder um bom concerto hoje por muito pena minha, mas não vou perder a oportunidade de ir ao cine clube. Tenho dúvidas sobre se o filme será bom ou não, mas porque não arriscar? Boas surpresas podem acontecer e sempre é mais divertido que estar aqui por casa. Sinto que tenho de reagir mas não sinto as minhas reacções naturais.
A ida ao cine clube foi bastante interessante. Tal como esperava, encontrei lá quem estava à espera, a estagiária interessante que conheci no hospital. Na altura trocamos uma serie de pequenos bilhetes culturais em testamos medimos a nossa aptidão cultural. Bastante compativel ,por sinal. Tinha a visto no início do filme, pareceu-me acompanhada, não sei se namorado ou amigo. Mas já lá vamos. O filme chamava-se "Mar Morto" de um tal de Ramos Pinto. Tal como tinha dito, não estava à espera de nada de especial deste filme e foi mais ou menos isso que obtive. Um filme bem ao estilo europeu, bem cru, que tenta colocar o espectador nas situações desconfortáveis normalmente vividas na solidão de cada um de nós. Um miúdo perturbado, mas se calhar mais normal do que se seria de esperar. Acto solitário da auto satisfação sexual. Perda da virgindade. Luzes. Argh, o filme tem intervalo. Detesto. Olho em volta e confirmo, é mesmo ela. Está diferente, de cabelo solto. Trocamos olhares e aquele cumprimento envergonhado. De resto, reconheço mais duas ou três caras não fosse esta uma cidade relativamente familiar. O filme continua. Morte das irmãs populares por abusos de drogas. Filme memoral sombrio. Reedição. Desenlace aceitável. Genérico e as pessoas começam a abandonar a sala. Saio também mas faço um compasso de espera junto dos postais free esperando que ela venha ter comigo. Veio. Falou comigo. Perguntou-me como estava. Disse melhor. Senti-me atrapalhado com situação. Tinha dito ao Sérgio que lhe daria o meu número se ele alguma vez quisesse falar comigo. A verdade é que não tive coragem. Senti-me ansioso. Disse duas ou três coisas sem jeito e despedi-me dela. Nem sequer sei o nome dela. Mais uma vez não senti as minhas reacções como minhas. Senti a atrapalhação do meu Eu. O meu Eu que não desembrulha e fica triste e desamparado. A rodilha em que sinto o meu espírito que não me deixa viver, que não de deixa sentir, que não me deixa soltar. O de menino com olhar cabisbaixo que perdeu o seu carrinho novo de brincar.
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